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"Arres, me deixe lá, que em endemoninhamento ou com encosto o senhor mesmo deverá de ter conhecido diversos homens, mulheres. Pois não sim? Por mim, tantos vi, que aprendi. Rincha-Mãe, Sangue-d’Outro, o Muitos-Beiços, o Rasga-em-Baixo, Faca-Fria, o Fancho-Bode, um Treciziano, o Azinhavre... o Hermógenes... Deles, punhadão. Se eu pudesse esquecer tantos nomes... Não sou amansador de cavalos! E, mesmo, quem de si de ser jagunço se entrete, já é por alguma competência entrante do demônio. Será não? Será?
"É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado".
Roberto DaMatta
Nos últimos anos, a vivência da perda irremediável conduziu-me a uma descoberta fora do comum. Levou-me ao entendimento que chorar é uma forma de rezar.
Choro, logo rezo; diria elegantemente um cartesiano. Rezo, logo choro; diria um estruturalista com gosto pelas esclarecedoras reversões que ajudam a descobrir dimensões ocultas; e a relativizar verdades e crenças estabelecidas. Relaciono-me de modo contraditório com todos que fazem parte de minha vida direta e indiretamente; de todos aqueles que, de algum modo, alcancei por minhas ações ou reações (que círculo imenso, Deus meu!); e logo compreendo que a todos e a cada um eu devo alguma coisa do mesmo modo que todos têm dívidas para comigo. No fundo, jaz soberano e, hoje em dia, um tanto envergonhado, o verbo amar que se desdobra em lágrimas e em palavras de agradecimento - de graças - de saudação, de confiança, de dor e de reconhecimento pela vida consciente da sua gratuidade e dos seus limites.O amor reconhecido nos faz ver que somos todos parte de uma pequena teia de elos sociais imperativos que, com o tempo, transforma-se num amplo oceano de laços opcionais. Por meio de marés imponderável, esse mar de conexões opcionais, transformam-se, por sua vez, em laços cruciais - do tipo: eu não vivo sem ela (ou ele), inventando a matéria-prima apanhada pela palavra saudade. Essa palavra-categoria luso-brasileira que, como nenhuma outra, convoca, reconciliando, choro e prece.
Dela, disse um Joaquim Nabuco relativizador e antropológico, sensível conhecedor das diferenças profundas entre sociedades e culturas, não o abolicionista e o político, para uma platéia americana no Colégio Vassar, em 1909:
"Mas como traduzir um sentimento que em língua alguma, a não ser na nossa, se cristalizou numa única palavra? Consideramos e proclamamos esse vocábulo o mais lindo que existe em qualquer idioma, a pérola da linguagem humana. Ele exprime as lembranças tristes da vida, mas também suas esperanças imperecíveis. Os túmulos, trazem-no gravado como inscrição: saudade. A mensagem dos amantes entre eles é saudade. Saudade é a mensagem dos ausentes à pátria e aos amigos. Saudade, como vedes, é a hera do coração, presa às suas ruínas e crescendo na própria solidão. Para traduzir-lhe o sentido, precisaríeis, em inglês, de quatro palavras: remembrance, love, grief e longing. Omitindo uma delas, não se traduziria o sentimento completo. No entanto, saudade não é senão uma nova forma, polida pelas lágrimas, da palavra soledade, solidão."
A marca desse estado, no qual até os afagos e o carinho dos amigos do coração tornam-se inúteis, é o choro como reza e a reza como choro. Pois em ambos está contida a experiência fundamental quando nos confrontamos com as situações fora de controle: com as negativas que nos roubam o pai, o filho, o cônjuge, o irmão e o amigo; ou com as moléstias que corroem as pessoas amadas. Reza e choro tentam responder aquele "porquê" aconteceu justamente conosco. Um "porquê" imperativo, desejoso de saber (para legitimar o que é percebido como mérito, pecado ou omissão) as razões do sofrimento; esse tema central na discussão dos sistemas religiosos realizada por Weber.
O choro-reza é tão verdadeiro para a criança que tem o chocolate negado pelos pais; quanto para o adulto que passa pela dor irremediável da perda de pessoas próximas. No soluço que nos sacode o peito e nos faz gemer de dor pela nossa condição de miséria e finitude, há o reconhecimento de que somos incompletos, perdidos, frágeis e fáceis de atingir porque tudo o que temos é relativo e passageiro.
Existe um sentido de humildade e de reconhecimento da perda de controle revelada no choro e na oração. Em ambas, há um render-se diante das frustrações do mundo ou da verdade muito mais perturbadora de que o mundo é mesmo um vale de lágrimas - um abismo arbitrário de frustrações e de perdas. Nas suas resplandecências, as lágrimas, como as rezas, deixam ver o que, ao fim e ao cabo, jamais iremos ter o que queríamos; que os outros não nos amam como gostaríamos que nos amassem; que não merecíamos sofrer aquele (ou este) golpe da sorte ou da vida; e que nada segue como nos romances, óperas, filmes e peças teatrais. Que, enfim, nem tudo é tão trágico ou nobre, mas que - como compensação - nada é tão feio ou sórdido porque tudo passa e os sinos dobram saudando, como diz Thomas Mann, o espírito da narrativa, ou essas lágrimas que no momento em que eu escrevo este texto, são derramadas pelo meu querido irmão Renato que morreu nesta última Sexta-Feira Santa.
Crônica publicada no Caderno 2 do O Estado de São Paulo, dia 2/4/2008.